Entenda o que está acontecendo entre a Rússia e Ucrânia



Considerada por Vladimir Putin (presidente da Rússia) uma “operação militar especial” para “desnazificar” a Ucrânia, a ação marca o início das atividades militares entre os países e explode um conflito em que, como em toda guerra, pode resultar em tragédia humanitária, crises econômicas, batalhas por territórios e disputa por narrativas sobre o que está, de fato, acontecendo.


Ambos os países integraram a extinta URSS. Eram seus maiores e mais importantes territórios. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky avisou ao seu povo e à Rússia que a invasão será recebida por ucranianos de frente (prontos para a guerra) e não de costas (fugindo do combate).


O conflito evidencia outra escala de magnitude quando a ex-ministra da defesa da Alemanha lamenta não ter sido capaz de agir de modo mais enfático para deter intenções e ações expansionistas da Rússia desde as invasões à Geórgia (2018), à Crimeia (2014) e à Donbass (2014).


Alguns dos motivos relacionados à ofensiva russa são:


- histórica busca do povo russo em direção a uma saída para um “mar de águas quentes”. O maior país do mundo em extensão territorial possui saídas ao mar, ao norte, congeladas por boa parte do ano. Após controlar o território da Crimeia, é possível que se busque a criação de um corredor, conectando por terra a Rússia ao mar Negro (estratégico para comércio, atividades de defesa e ataque no contexto de alterações na ordem geopolítica mundial);


- Putin pretende impedir maior avanço da OTAN sobre antigos territórios da URSS. Simbolicamente, o que foi entendido como flerte entre os ucranianos e o Ocidente disparou em Moscou o sinal de alerta (ou a desculpa) de que algo similar ao ocorrido no ingresso de países como Estônia, Letônia e Lituânia (entre outros) na OTAN pudesse ocorrer, reduzindo a distância territorial e a geopolítica entre a Rússia e seus antigos rivais. Assim, a narrativa de Putin como encarnação do orgulho e poderio russo, em declínio desde o colapso soviético, pôde ser reativada;


- política, militar e economicamente, com o fim da Guerra Fria, EUA, OTAN e seus integrantes buscaram ampliar suas zonas de influência. A possiblidade de ingresso ucraniano nesse grupo não é tolerada pela Rússia, que se vê seriamente ameaçada com a eventual proximidade de tropas inimigas tão próximas de seu território;


- alinhadas, Rússia (detentora de imenso arsenal nuclear e capacidade de cyber ataque) e China (potência econômica, tecnológica e maior exército do mundo) podem estar desafiando/desequilibrando a organização geopolítica estabelecida e consolidada no século XX;


- outro motivo pouco comentado baseia-se na especulação de que os conflitos serviriam também para direcionar a opinião pública para outras questões que a distraiam da estagnação econômica e das contestações políticas (quase sempre veladas) ao autoritarismo do governo Putin.


Entre possíveis e prováveis desenlaces para a ofensiva russa contra a Ucrânia temos:


- urgente e necessária preparação de países europeus para receber, acolher e proteger refugiados ucranianos (uma questão ainda mais tensa em razão do contexto de xenofobia e esfacelamento de redes de apoio mútuo que a União Europeia vem atravessando). As migrações forçadas já estão em curso;


- reforço do nacionalismo ucraniano e o fortalecimento político da OTAN. Até mesmo Suécia e Finlândia passaram a considerar seu ingresso na entidade. Novos atores podem ingressar ou mudar de estratégia no tabuleiro geopolítico atual;


- aceleração do processo de transição energética da Europa para um modelo mais sustentável e menos dependente dos recursos energéticos russos;


- para ser possível confrontar as principais lideranças do Ocidente, Putin precisou costurar novos acordos com Xi-Jiping (China). Nesse contexto, a Rússia se apresenta internamente forte para sua população e para a mídia internacional, mas vulnerável em relação aos compromissos de longo prazo assumidos com a China. Os próximos capítulos dessa aliança darão o tom dos acordos desenhados.

Até o momento, há muitas incertezas e possibilidades de ações com potencial para ceifar vidas e mudar o rumo das relações econômicas e políticas entre países.


Esse texto é uma contribuição explicativa de Cássio Lopes, nosso Professor de Geografia.

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